Cultura

Aonde o seu trabalho vai parar?

Acordar, vestir-se, tomar café, pegar o ônibus (o carro, o metrô) e ir para o trabalho. Foi assim que aprendemos a produzir riqueza e gerar progresso. Mas isso está mudando. Rapidamente. Ok, ainda acordamos, nos vestimos e tomamos café da manhã (não necesseriamente nesta ordem – há quem acorde só depois de uma boa xícara café), mas nos últimos anos milhões de trabalhadores ao redor do mundo passaram a adotar rotinas diferentes com relação à sua atividade profissional. Seja por opção ou por força dos cortes em estrutura física por parte das organizações, o chamado “home office” passou de tendência a realidade e isso, mais que representar uma mudança de rotina, tem transformado a forma como as empresas fazem negócio e se relacionam com o capital humano. Além de gerar uma pequena revolução na mobilidade urbana.

Para se ter ideia, nos Estados Unidos, 40% dos trabalhadores usam a opção do home office, segundo os dados mais recentes divulgados pelo Instituto Gallup. Uma pesquisa da SAP, de 2015, mostra que, no Brasil, 37% das grandes empresas oferecem a possibilidade de trabalho remoto em parte da jornada a pelo menos uma parcela dos funcionários.

O relatório divulgado pelo Gallup Gallup mostra que os funcionários que adotam parcialmente o home office dedicam mais horas ao trabalho — 4  horas semanais a mais do que quem cumpre jornada no escritório — e relatam índices maiores de engajamento e satisfação. Em termos econômicos, esse aumento na produtividade representa um incremento de cerca de US$ 11.000 por ano por funcionário para as empresas, segundo a consultoria americana Global Workplace Analytics. Nada mal, não é mesmo?

De acordo com Patricia Menezes, VP Sênior de Recursos Humanos para a América Latina da Atos e Unify, que escreveu um artigo a respeito deste tema, “diante do mundo dinâmico atual é preciso atingir um equilíbrio (entre vida pessoal e profissional) e contar com as ferramentas de trabalho remoto para realizar as atividades profissionais de onde, como e quando quiser”. Para ela, oferecer flexibilidade aos funcionários significa ter profissionais mais satisfeitos e mais produtivos. “A presença das comunicações unificadas nas empresas é algo que tem se tornado um dos principais temas de discussões entre os cargos de liderança a fim de proporcionar maior agilidade às tarefas diárias, aumentar a satisfação dos funcionários e seus rendimentos. As transformações no ambiente corporativo em torno do trabalho remoto já começaram nos últimos anos e estão ganhando cada vez mais força. Estudos feitos pela nossa empresa indicaram algumas das tendências importantes em comunicações unificadas. Entre elas, estão a preferência pelo trabalho remoto, o crescimento das plataformas de colaboração e aplicações, o aumento da produtividade, e a perda de importância por parte dos locais físicos para as operações dos negócios”.

Na prática, ainda segundo Patrícia, tudo isso tem transformado a forma como os colaboradores interagem, como a liderança administra os projetos e os sistemas corporativos e quais aspectos ganham força e valor nesse novo ambiente que se constitui. “As ferramentas de trabalho remoto permitem uma tomada de decisão mais ágil, realização de reuniões em tempo instantâneo e a partir de qualquer local. Tudo isso reflete em rapidez no negócio e transforma a visão das pessoas diante do trabalho. Inclusive, por meio do trabalho remoto, muitas delas conseguem enxergar a maneira ideal de fazer suas atividades pessoais e corporativas, com equilíbrio, e trabalhar mais felizes e satisfeitas”.

É evidente que, à parte as reduções de custos diretos, dá para dizer que colaboradores mais felizes refletem em menos gastos para as empresas, afinal eles poderão fazer todo o trabalho de casa em regiões com baixo custo de vida e economizando em deslocamentos, gerando menores impactos no orçamento corporativo. “Ao oferecer flexibilidade no trabalho, a empresa consegue fidelizar o colaborador, gerando benefícios para os dois lados. A companhia poderá contar com os serviços do profissional, que estará satisfeito sem o stress do trânsito, das horas perdidas. Ele aproveita mais o tempo de acordo com suas necessidades: seja pessoalmente ou realizando atividades paralelas que desenvolverão sua carreira”.

Além disso, levantamentos indicam ainda que as reuniões virtuais são muito mais produtivas, já que o diálogo é maior a partir de vários dispositivos móveis. As pessoas têm um grande interesse em abordar mais tópicos, devido à distância, e promover ideias – evitando o monólogo nos encontros presenciais.

“A questão da flexibilidade também tem tudo a ver com a geração Y, jovens que preferem um horário de trabalho ajustável e um ambiente remoto. Eles já nascem ‘conectados’ e, para essa geração, as atividades profissionais ou realização de projetos contam muito mais que estar atrelado a um espaço físico”, coloca a VP Sênior de Recursos Humanos para a América Latina da Atos e Unify.

Lugares diferentes, mesmo propósito

Há quem replique com o seguinte questionamento: “Essa coisa de home office é muito bonita no papel, mas onde fica a cultura organizacional, os valores, a unidade da organização se está cada um em cada canto?”. É justamente aí que entra a liderança corporativa. E o RH, claro.

Segundo Polianna Lopes, diretora de Pessoas e Marketing da Microcity, a verdadeira missão da área de gestão de pessoas de uma empresa é ser guardiã dos valores e princípios que regem os negócios e gerar líderes capazes de assumir grandes responsabilidades. Além disso, é papel da área alinhar o desenvolvimento profissional dos colaboradores com os objetivos estratégicos e indicadores das organizações, a fim de estabelecer uma direção para a evolução do negócio de forma ordenada. “Ao mesmo tempo, com o aumento da procura por mais eficiência e rendimento por parte das empresas, aprimorar a gestão de colaboradores se faz cada vez mais necessário para reger melhores práticas e criar um ambiente onde seja desenvolvido o legado de crescimento do capital mais valioso de uma organização: as pessoas que fazem parte dela”.

De fato, profissionais que compartilham da cultura da organização fazem toda a diferença na evolução dos negócios e propagam a cultura organizacional. “Lembre-se sempre, apesar de importante, ensinar tarefas técnicas é muito mais fácil do que ensinar a cultura organizacional. Por isso, quem está alinhado a ela se torna uma ferramenta importante para a consolidação da gestão de pessoas, e servem como exemplos a serem seguidos pelos demais funcionários”. Como fazer isso a distância? A tecnologia está aí para isso.

Mas mais importante que isso, no entanto, é o alinhamento. “Essa é a palavra de ordem para que organizações alcancem seus objetivos e, em contrapartida, possam partilhar as conquistas com seus colaboradores. O alinhamento se faz necessário, pois contempla a capacidade da empresa de se comunicar com seus interlocutores (colaboradores, acionistas, fornecedores e comunidade), criando uma atmosfera de confiança, respeito e objetivos comuns, para que possa ter o retorno financeiro esperado”, afirma Sandra Ferraz, Diretora Jurídica, RH e Suprimentos do GRUPO GR.

Para ela, a área de Recursos Humanos pode atuar no melhor relacionamento dos gestores com suas equipes apoiando para que os mesmos tenham ferramentas, técnicas e postura adequada no desenvolvimento de seus times. “O RH deve atuar com uma parceria estreita entre as áreas e os colaboradores, garantindo que os valores da empresa sejam cumpridos.

Trabalho, sim. Regulamentação, não

Ainda que o trabalho remoto seja uma realidade (e esteja na pauta das empresas há pelo menos cinco anos), o Brasil ainda carece de uma regulamentação trabalhistra que ofereça segurança jurídica para as empresas apostarem ainda mais no modelo.

No último dia 6 de fevereiro, a assessoria de imprensa da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) divulgou nota dizendo que a entidade deve votar um projeto que regulamenta o trabalho a distância e o teletrabalho (PLS 326/2013). O texto, de autoria do senador Eduardo Amorim (PSDB-SE), altera a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e estabelece duas categorias de trabalho remoto: o regular, quando o profissional dá expediente fora da empresa, como representantes comerciais e motoristas; e o chamado teletrabalho, feito com o auxílio de novas tecnologias e equipamentos eletrônicos, como internet, telefones celulares e computadores.

Outra boa notícia recente veiodo Conselho Nacional do Ministério Público, que aprovou por unanimidade, no dia 31 de janeiro, proposta de resolução para regulamentar o teletrabalho no CNMP e no Ministério Público. De acordo com a resolução, “os objetivos primordiais são, ao lado da contenção de recursos públicos, o aumento da produtividade e da qualidade de vida dos servidores, o estímulo ao desenvolvimento de talentos, a economia de tempo e a ampliação da possibilidade de trabalho aos servidores com dificuldade de deslocamento”.

Esses são indícios de que o trabalho remoto deverá contar com regulamentação própria nos próximos anos. O que deve impulsionar ainda mais o modelo.

Whirlpool adota sistema de home office para unidades administrativas

Seguindo uma tendência global e com o intuito de proporcionar bem-estar e flexibilidade a seus colaboradores, a Whirlpool Latin America levou para suas unidades administrativas, no Brasil, Argentina, Chile, Peru, Equador, Guatemala, Colômbia, Miami e Porto Rico, a prática do home office, uma vez por semana.

De acordo com Andrea Clemente, diretora sênior de Recursos Humanos da Whirlpool Latin America, o projeto ganhou seus contornos a partir de benchmarkings com empresas que já utilizam a ferramenta e vêm obtendo um aumento de performance e excelência, comprovado na avaliação de seus times. “Vivemos em um mundo totalmente conectado e que dispõe de tecnologias com infinitas possibilidades para tornar a nossa vida melhor e mais produtiva. Neste sentido, adotamos a solução para garantir  ganho de tempo, concentração, redução de fatores estressores do trânsito, além do estreitamento da relação do colaborador com a organização”, diz a executiva.

No Brasil, para dar suporte a esta ferramenta de mobilidade, a companhia possibilitou que os funcionários elegíveis trocassem seus desktops por notebooks, forneceu suporte para a tecnologia Voip, que permite o uso da ramal pelo computador, começou a trabalhar com a plataforma Google, que garante mais conectividade e facilidade no acesso aos documentos e programas utilizados no dia a dia, e reforçou questões importantes quanto à jornada e a rotina de trabalho. “Desenvolvemos uma cartilha e um vídeo com a explicação de regras e possíveis dúvidas. O que deixamos claro é que o horário estabelecido em contrato, com intervalo para refeição e descanso, deveria ser mantido, assim como a comunicação e interação com suas equipes, para benefícios de todos”, enfatiza Andrea.

Os pré-requisitos são a disponibilidade de internet residencial com, no mínimo, 10 Mbps e local adequado para trabalhar remotamente. A utilização deste benefício é opcional e o colaborador, em conjunto com seu gestor, decide qual é o melhor momento da semana para o home office, coordenado entre todos os membros da equipe. “Consideramos de suma importância esta conversa de alinhamento para atender às demandas do negócio e as necessidades dos colaboradores de forma equilibrada. Com isso, buscamos sempre ampliar o nível de satisfação dos nossos profissionais com transparência e pautado nos valores da companhia”, completa.

Em uma pesquisa realizada entre os colaboradores das unidades administrativas brasileiras, a implementação do home office se tornou um benefício de alta relevância. “Entendo  a iniciativa como uma oportunidade para promover a qualidade de vida. Costumo levar até duas horas por dia no trânsito e isso, somado à rotina, é muito cansativo. Com a adoção do benefício, aumentei minha produtividade e pude contar com o conforto e a comodidade de resolver assuntos pessoais durante meu almoço, além de ficar mais próxima de meus familiares  animais de estimação”, destaca Debora Paes, analista da área de Relações Institucionais da companhia.

Efeito da crise: grandes e médias empresas buscam reduzir custos com espaços físicos

Considere a seguinte situação: empresa precisa se instalar em São Paulo, com uma filial que contará com cem estações de trabalho para a área administrativa, contudo, possui menos de um mês para encontrar o local e montar o escritório, deixando tudo preparado para a chegada no aeroporto dos colaboradores que atuarão na unidade.

Pode parecer um disparate, mas todo esse processo foi real. Quem relata é Fernando Bottura, da GoWork, empresa que viabilizou esse projeto. “Na verdade, o prazo que fechei com a empresa era de 15 dias, contando o período para a locação do espaço. Tem que ser tudo muito rápido. O diretor da empresa chegou a apostar que não entregaríamos a tempo, entretanto, mesmo tendo um feriado, atingimos nossa meta. Pena que não entrei na aposta”, brinca ele.

Em contraponto à adoção do home office, uma alteranativa para reduzir custos com o espaço físico é enxugar. “O atendimento desse tipo de demanda se torna cada vez mais frequente nos grandes centros. Com a percepção de grandes e médias empresas de que se leva um longo tempo e muito trabalho para gerenciar esse processo de montagem de um escritório, a terceirização desse trabalho se torna algo viável”, afirma Bottura.

Outro ponto positivo é o fato de os espaços serem preparados on demand, podendo o contratante solicitar personalizações que adequem o espaço às suas necessidades. “Esse processo garante uma otimização de processos e a entrega muito rápida dos espaços, atendendo médias e grandes corporações que buscam soluções de espaço, gestão e manutenção de escritórios no melhor custo benefício e nas principais capitais do país”.

Mercado de trabalho do futuro

Pedreiro espacial, lixólogo, entregador de encomendas por drone, carteiro holográfico e professor robô. Essas são algumas das profissões com as quais alunos do ensino fundamental e médio dos colégios Anhembi Morumbi, em São Paulo, e Anchieta, em São Bernardo do Campo esperam se deparar ao chegar no mercado de trabalho na próxima década. Detalhe: elas nem mesmo existem ou são consideradas por seus pais.

O Fórum Econômico Global ratifica a previsão dos estudantes. Segundo a entidade, 65% das crianças que hoje estão na escola primária trabalharão no futuro em atividades que ainda não existem. Como então se preparar para profissões que não foram criadas? “Mais do que formação técnica, o mercado de trabalho futuro exigirá competências socioemocionais”, afirma Marco Gregori, CEO da Rede VIAe. “Se um indivíduo é capaz de inovar, cooperar, demonstrar empatia, achar soluções, ser criativo e curioso ele conseguirá sobreviver e ter bons resultados nesta nova realidade e neste novo mercado”, explica.

Para fazer frente a isso, as escolas da Rede VIAe adotam método direcionado para o desenvolvimento de tais competências e também para estímulo ao empreendedorismo desde cedo, como a criação e o gerenciamento de mini-empresas. “O conceito de empreendedorismo já se popularizou e assim seguirá, dada a cada vez menor oferta de empregos. Ao ensinar o estudante a empreender já no processo educativo, o preparamos para inovar em um mundo em constante mudança”, diz Marco.

Além do estímulo a essas competências e ao empreendedorismo, no Colégio Anchieta, por exemplo, os estudantes do ensino médio técnico são estimulados a desenvolverem projetos e inventarem produtos que ainda não existem: grupos de alunos criaram uma escada inteligente equipada com sensores de laser e LED que acendem no escuro para evitar acidentes, um protótipo de casa cujas lâmpadas são controladas pelo celular e até um bebedouro facilitado para deficientes visuais. “A escola precisa quebrar o paradigma tradicional e ajudar os pais a entender que tão importante quanto a nota de matemática, química e preparação para o vestibular é incentivar que os jovens desenvolvam autonomia e proatividade, inclusive para criar eles mesmos as tais ‘profissões do futuro’”, finaliza Marco.

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