Ética

Braselino Silva, presidente do Instituto dos Auditores Internos do Brasil: “Momento pede transparência”

Um estudo divulgado recentemente pela entidade Transparência Internacional aponta que, dentre 176 países listados no ranking sobre a percepção de corrupção no mundo, o Brasil fechou o ano de 2016 em 79º lugar. É uma posição considerada intermediária, mas que destaca uma queda de três colocações na comparação com 2015, ano no qual o país estava na 76º posição. O levantamento leva em consideração a percepção que a população tem sobre a corrupção ligada a servidores públicos e políticos. De um modo geral, quanto melhor um país está situado no ranking, menor é a percepção da corrupção por seus cidadãos.

Apesar da reação negativa à piora do Brasil em um dos principais indicadores independentes internacionais, é necessária cautela na interpretação dos dados, afinal a queda não significa necessariamente que os níveis de corrupção no país aumentaram em relação ao ano passado. “O ranking mensura percepção, ou seja, ele não avalia de fato o grau de corrupção de um país, mas sim o quanto a população crê que suas instituições sejam corruptas. Isso é uma variável que sofre influência direta de, por exemplo, liberdade de expressão e imprensa, atuação de grupos midiáticos e de grupos de monopólio, maior exposição de casos e participação da população na política e sociedade”, acreditam os especialistas da FTI Consulting, Cynthia Catlett e Bruno Marques Grion.

Atualmente, há grandes operações de investigação envolvendo empresas estatais, políticos e empresários em nível nacional. Se comparado a décadas anteriores, as operações têm se tornado mais robustas, longas, complexas e midiáticas. “Toda essa nova conjuntura de atuação tem recebido uma cobertura da mídia intensa que, somado a um ambiente extremamente conectado em redes sociais, amplia a noção de que ‘vemos corrupção o tempo todo’. Isso não quer dizer que haja maior ou menor corrupção no país, mas que a percepção aumentou, já que os indivíduos estão acompanhando com maior intensidade e em tempo real”, ressaltam os consultores, que ainda avaliam que o combate à corrupção está substancialmente melhor nos últimos anos, já que são perceptíveis diversas iniciativas para investigar complexas redes de corrupção, como por exemplo, as operações “Lava-Jato” e “Zelotes”, que vem sendo conduzidas por instituições democráticas com razoável autonomia, como o Judiciário, Polícia Federal e Ministério Público.

Na entrevista a seguir, Braselino Silva, presidente do Instituto dos Auditores Internos do Brasil (IIAB) e diretor da controladoria do Banpará, uma das maiores instituições financeiras do Norte do país, fala sobre a importância de as empresas contarem com a ajuda de auditorias para manter os seus processos longe de atividades espúrias e também sobre como o RH pode ajudar a fortalecer a bandeira da ética dentro das organizações.

O sr. foi recentemente reconduzido à presidência do IIAB. Quais são os seus principais objetivos à frente do Instituto?

É verdade, fui presidente no biênio 2012-2013, quando iniciamos o processo de consolidação da profissionalização do Instituto, posicionando-o na quinta posição global no ranking das maiores instituições de auditoria do mundo. Sem sombra de dúvidas, a nossa principal meta está no contínuo fortalecimento da profissão de auditor, provendo os profissionais da área com uma quantidade e qualidade enormes de cursos de educação continuada. Quero deixar o cargo com o IIAB como o terceiro maior instituto de auditoria interna do mundo. Esse é o meu compromisso.

O Brasil recentemente foi rebaixado no ranking global de transparência e os mais diversos escândalos de corrupção ocupam as páginas dos principais veículos brasileiros. Como é que o Instituto pode contribuir para o progresso da transparência no país?

O momento que estamos vivendo é histórico para a nossa classe. Mas é ainda mais importante para o Brasil. Vivemos, sim, uma profunda crise política, econômica, mas principalmente ética. Todas as entidades, em todos os níveis, estão precisando fortalecer os seus processos de governança, levando mais seriedade e transparência para o dia a dia das organizações. Com o tempo ficou impossível ignorar que havia certo nível de promiscuidade nas relações empresariais, tanto em nível público quanto privado, os conflitos de interesses ficaram muito evidentes, e agora é hora de limpar, de separar o joio do trigo. Nós podemos e devemos contribuir muito com o aumento da percepção da transparência nas empresas. Isso acontece através da construção de programas sérios de governança. Não é à toa que recentemente tivemos mais de 700 profissionais em nosso congresso anual. É um evento pago, mas havia muita gente. Todos buscando entender como ser mais transparentes em suas atuações.

Em dezembro último, o Congresso regulamentou a Nova Lei das Estatais (nº 13.303). De que maneira ela deve fortalecer as diretrizes de governança das organizações?

Sobremaneira. Uma das principais novidades da Lei das Estatais é que ela estabelece critérios mínimos para a nomeação de conselheiros e administradores, como a exigência de ficha limpa, de conhecimento do tema afim da empresa e ausência de conflitos de interesses. (O Decreto estende algumas dessas previsões a empresas estatais de menor porte, com receita abaixo de R$ 90 milhões, e regulamenta as medidas de governança e controles para essas estatais de menor porte, exigindo as mesmas estruturas das empresas grandes – Comitê de Auditoria, área de compliance, requisitos e vedações para administradores e conselheiros, respeitadas as proporções e a capacidade financeira dessas empresas).

Em sua visão, qual é o papel da área de Recursos Humanos quando o assunto é mais transparências nas empresas?

É um papel absolutamente fundamental. O RH deve ser o guardião dos valores, da visão e missão das companhias. Além disso, é por ele que passa todo o processo de educação e desenvolvimento do capital humano, o que é essencial para o aprimoramento dos processos e maior grau de clareza sobre a importância de se adotar posturas éticas e responsáveis.

E como é que o RH pode ser empoderado na lida com outras áreas corporativas como Compras, por exemplo, que costuma ser crítica quando o assunto é compliance?

Esta é uma área crítica, sem dúvida. Olha, tem que definir processos. E isso tem que acontecer de for tácita, muito clara. Desde a aquisição de determinado item até a locação de materiais e produtos, todos esses processos devem ser analisado e estabelecidos dentro de um código de ética e conduta maciçamente divulgado dentro da companhia. Não dá mais para ser “empírico” em relação a isso. É preciso definir abertamente, com o RH, adotar uma metodologia, convidar uma auditoria para opinar e estabelecer tudo de forma 100% transparente. Até os presentes e brindes que os profissionais recebem devem respeitar uma diretriz. Por exemplo, máximo de R$ 100. Mais que isso pode caracterizar uma relação de promiscuidade. Claro que esse é só um exemplo. Mas não vejo como não começar tudo isso por uma profunda revisão de todos os processos organizacionais.

Qual é o momento ideal para fazer ou solicitar uma auditoria na empresa?

Sempre. Uma das minhas missões é fazer as empresas compreenderem que as auditorias não devem ser chamadas apenas para “apagar incêndios”. A atuação de um auditor interno não deve ser reativa, mas preventiva. É por isso que um processo de auditoria é chave na construção de Conselhos de Administração, por exemplo. Cada departamento precisa e deve ter um planejamento anual a ser trabalhado junto a uma auditoria. É claro que em momentos mais agudos, de crise, o auditor intervirá, mas o ideal é ele estar presente o tempo todo para que a crise não aconteça.

Qual é o principal desafio que um auditor interno encara junto às empresas, de modo geral?

Acredito que seja a falta de valorização de seu trabalho. Nem todo empresário percebe o quão importante é cuidar da sua imagem e, consequentemente, da imagem da empresa quando o assunto é governança e transparência. E digo isso também para as pequenas empresas, que precisam de processos mais éticos também. Nesse sentido, costumo dizer que o auditor tem que se valorizar e manter um contato permanente com as cúpulas das empresas, mostrando o seu trabalho e educando o seu público-alvo.

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