Desenvolvimento

Em busca do pensamento crítico

Pensar de forma crítica é uma habilidade valorizada e cada vez mais procurada pelas empresas na contratação de CEOs e grandes executivos em todo o globo. De acordo com especialistas, o conceito do pensamento crítico nasceu a partir da junção da filosofia (lógica), neurolinguística e psicologia. Esse assunto já é tratado de maneira específica em algumas universidades na Europa, como a de Roterdã – uma das principais voltada aos negócios do país – e esse perfil de profissional já está sendo fartamente procurado por empresas aqui no Brasil. Tanto que o INEPAD (Instituto de Ensino e Pesquisa em Administração), que atua há mais de dez anos com educação executiva online, em parceria com a Rotterdam Business School, oferece o Master in Consultancy and Entrepreneurship, programa de mestrado em Negócios em que uma das disciplinas estudadas tem como foco o pensamento crítico aplicado aos negócios.

Pragmaticamente, a realidade brasileira atual tem exigido ainda mais essa habilidade. Em tempos de crise, ter um profissional que pense de forma crítica, ou seja, com critérios, é uma obrigação e uma demanda cada vez maior na rotina empresarial. “A atual recessão econômica, por exemplo, tem mostrado que as crenças sobre o futuro do mercado financeiro tendem a ruir. Portanto, a fim de melhorar a situação, primeiro é preciso entender o que deu errado, desafiar os pressupostos ocultos que arrancavam a economia fora dos trilhos. Saber olhar para eles e como desafiá-los é também uma parte do curso de pensamento crítico”, diz a professora Giedre Vasiliauskaite, doutora em Filosofia pela Universidade de Roterdã, da Holanda, professora do Master in Consultancy and Entrepreneurship de Roterdã, em parceria com o INEPAD, pesquisadora e especialista em Pensamento Crítico, Análise de Argumentos e Gestão Intercultural.

A proposta de estudar o pensamento crítico possibilita uma análise maior de um problema sob vários aspectos e perspectivas, e chega-se a soluções mais criativas. Giedre explica ainda que não se trata de usar a força e manipulação, mas sim de apresentar argumentos fortes e convincentes. Além disso, o pensamento crítico ajuda a reconhecer preconceitos, suposições equivocadas e pontos fracos no pensamento. “Significa que, para ser bem informado, é preciso reconhecer preconceitos e não ser facilmente influenciado por argumentos ruins. As pessoas ganham mais autonomia, são mais capazes de pensar por si mesmas, identificam e aprendem com os erros, até chegar a soluções inovadoras em situações de ambiguidade”, explica.

Segundo Giedre, quanto mais cedo começar a desenvolver as habilidades de pensamento crítico, mais fácil será aprender a tê-los em uma idade mais avançada. Ela diz ainda que as empresas não valorizavam essas habilidades como deveriam, “porque nas sociedades industriais o foco principal era reduzir o produto tangível e as receitas”. “Elas não viam a necessidade do processo de pensar, até que começaram as dificuldades. Então, agora a demanda e o interesse em tais habilidades estão crescendo.”

Uma nova história

O foco das organizações mudou. Giedre explica que a boa gestão requer, necessariamente, um processo de reflexão competente. Além disso, afirma que as empresas estão procurando especialistas com boas habilidades de pensamento crítico, pois um monte de outras habilidades (de ordem inferior), quer tenham sido terceirizadas ou automatizadas, requerem habilidades que não podem ser automatizadas: boa comunicação, criatividade e pensamento crítico.

Um estudo realizado pela Accenture em 2013, feito com mais de 400 executivos empregadores, mostrou que a maior necessidade vista por eles em relação às habilidades de seus executivos é a capacidade de resolver problemas. Esse é o foco em que age o pensamento crítico. Com ele, em uma discussão, torna-se fácil ver como as ideias estão interligadas. Assim, é possível livrar-se de informações redundantes que embaralham a comunicação e desperdiçam tempo precioso.

No mesmo sentido, um artigo de 2013 da Forbes mostra a reflexão crítica como a competência mais importante entre os empregadores. Giedre explica que a crise financeira demonstrou de maneira dura que muitas pessoas no mundo dos negócios foram baseando suas decisões em preconceitos e suposições erradas. Por isso, pessoas autoconscientes e capazes de desafiar seus pressupostos básicos estão se tornando muito valiosas no mercado.

Além disso, diferentes mudanças sociais no mundo ocidental e a globalização contribuem também para a necessidade de pensamento crítico. “As pessoas precisam entender umas às outras, a fim de se comunicar, e para isso elas precisam estar abertas a diferentes pontos de vista. A nova geração que está se juntando ao mercado agora é muito mais focada na colaboração e diversidade, e é por isso que o pensamento crítico, juntamente com a comunicação e a criatividade, é chamado de “a habilidade do século XXI”.

Roberto Gonzalez Duarte, coordenador dos cursos do INEPAD, e David Forli Inocente, gerente de Ensino e membro instituidor do Instituto, explicam que ser capaz de pensar criticamente pode fazer a diferença tanto para a organização quanto para a carreira do indivíduo. Antes, contudo, vale lembrar que essa “habilidade” de pensar criticamente é também uma “atitude” que os indivíduos e, em especial, os gestores devem desenvolver. “Mas se as organizações precisam de pessoas que pensem criticamente, é preciso, antes, que sejam criadas as condições para esse pensamento florescer”, comentam.

Forli diz que, em um momento de crise econômica como este que o Brasil vive agora, ser capaz de analisar criticamente o ambiente interno da organização e mapear as inconsistências e, portanto, as necessidades de ajuste – de qualquer ordem – pode fazer uma grande diferença. Ele comenta ainda que o exercício cotidiano do pensamento crítico cria condições para a organização sobreviver nos maus e nos bons momentos. “Pode-se dizer que pessoas/organizações que desenvolvem o pensamento crítico estão menos sujeitas às ondas de euforia ou de depressão.”

Duarte comenta também que os desafios das organizações são cada vez mais sistêmicos, ou seja, cada movimento gera muitos impactos e oportunidades diferentes. O profissional que pensa criticamente é capaz de gerar muitas análises diferentes para a mesma situação, e por consequência, a solução adotada tem muito mais chances de alcançar êxito. “Essa é uma disciplina muito importante e exigente, pois também propõe posturas diferentes de alunos e professores. As avaliações podem estar baseadas não apenas em ‘certo’ e ‘errado’, mas também na capacidade do aluno de girar um determinado problema em diversos ângulos até encontrar o cerne da questão.

Gestores que aprenderem a pensar criticamente não apenas proporão respostas, mas também remodelarão perguntas de modo a garantir que o desafio proposto seja efetivamente solucionado”, diz, e exemplifica: “Uma empresa pode se questionar: as companhias geralmente se debruçam para entender as razões do baixo desempenho de produtos ou serviços, enquanto talvez devessem estar se questionando a respeito de transmissão e percepção de valor”.

Para fomentar esse pensamento crítico, Duarte e Forli acreditam que o ideal é falar de situações em torno das quais há um grande consenso (responsabilidade social corporativa é um bom exemplo) e pedir aos alunos para analisar cuidadosamente todos os aspectos e avaliar as diferentes dimensões da questão. Eles afirmam que o consenso, às vezes, “cega”, impedindo o florescimento das diferentes dimensões de uma questão, de um problema.

Pensar assim tem que ser um hábito. Contudo, há duas condições para que esse “hábito” seja incorporado ao dia a dia das pessoas e das organizações. De acordo com Forli, a primeira é o desejo das pessoas de se “exercitar”. Isso pode ser estimulado de forma que elas criem esse hábito. A segunda é uma condição macro, ou seja, o espaço social e a organização precisam criar condições para que o pensamento crítico exista. No caso das organizações, as lideranças podem estimular, fomentar o desenvolvimento do pensamento, mediante a adoção de critérios de seleção e promoção de pessoas que demonstrem tal habilidade. “Ocorre, porém, que a instalação desse ambiente somente se dá com impulsos que naturalmente ocorrem por meio de indivíduos”, ressalta.

Por outro lado, pensar criticamente pode causar certa contrariedade ao redor. Duarte comenta que a cultura brasileira sabidamente não favorece esse tipo de pensamento, pois pode ser confundido com a “crítica” pura e simples. Essa confusão demonstra como o sujeito que pensa criticamente deve ser capaz de criar uma argumentação consistente e sólida, de maneira a sustentar seus pontos de vista. “Esse é um paradoxo importante: em uma cultura que não favorece o pensamento crítico, aquele que busca desenvolvê-lo deve fazê-lo muito bem, sob o risco de ser mal compreendido e, pior, perder a legitimidade perante os pares e superiores.”

O líder também tem um papel fundamental na propagação disso. Como fazer? Para Forli, ele precisa se questionar a respeito de sua própria postura. “O líder visionário valoriza o questionamento.”

Já o RH deve olhar os seus profissionais como um valioso manancial de oportunidades de questionamentos. É preciso que a área crie um ambiente de mudança, dê abertura e, assim, estimule as lideranças. “Me lembro ainda de uma prática que o Ricardo Semler implantou na Semco: eram as reuniões ‘você está louco’. Era um momento em que tudo podia ser questionado.  Muita inovação saiu dali. O RH tem papel essencial. A cultura latina desestimula que se questione o líder, e é precisamente aí que as empresas tropeçam. Líderes fortes que não são questionados erram praticamente sozinhos.”

Para quem deseja desenvolver mais suas habilidades de reflexão e crítica, Giedre aconselha, em primeiro lugar, ser curioso e ter a mente aberta para diferentes pontos de vista. “Ouça atentamente, pergunte por quê, questione o seu ponto de vista e o das outras pessoas e tente ver se os pressupostos básicos que parecem óbvios para você são realmente corretos. Seja um pouco suspeito, mas não muito.”

Para finalizar, a especialista cita o escritor da Harvard Business Review, John Baldoni: “Um executivo comum pode ver o excedente de produção como um problema. Um pensador crítico deve vê-lo como uma oportunidade para renovar o processo de produção em algo novo, explorar novos mercados ou testar outros aplicativos e embalagens para o mesmo produto”.

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