Cultura

Empoderando mulheres pela informação

Após se cansar de fazer matérias sobre qualquer assunto que caía em seu colo, a jornalista Juliana Faria decidiu buscar uma especialização. Estudou moda em Londres e fez mais dois cursos na Central Saint Martin’s, sobre Marketing de Moda e Styling. E logo entendeu que moda é uma coisa ampla, e a parte social e antropológica dela era o que a interessava. “Por isso que digo que sempre gostei mais de falar sobre as mulheres que vestem as roupas do que as roupas que vestem as mulheres”, comenta.

A partir daí, começou a trabalhar em redações de revistas femininas. Conheceu mulheres inspiradoras, apaixonadas pelo que faziam, e aprendeu muito. Mas seu interesse pelo feminino ultrapassava a barreira dessas publicações; suas sugestões de pautas já não faziam mais sentido para aquele espaço, e muitas eram rejeitadas por não conversar com a linha editorial – por exemplo, sua vontade de falar sobre assédio sexual.

Foi assim que Juliana decidiu criar seu próprio projeto. “Se não poderia escrever sobre o que me interessava nessas revistas, criaria um blog próprio, no qual teria mais liberdade. E poderia também ser uma opção de leitura para outras pessoas, caso houvesse esse interesse.” E o feminismo pautou muito a criação desse espaço, o Think Olga, e a escolha dos assuntos de que ela trataria. Com informações em seu site ou por meio de outras ações, ela busca desconstruir uma série de conceitos que oprimem as mulheres e pressões sociais que deixam suas vidas mais difíceis. Além disso, o espaço cria campanhas e projetos cujo objetivo é empoderar mulheres em diversas áreas – de violência de gênero a liderança no trabalho. “Não foi um projeto que nasceu com um conceito totalmente pronto. Aprendi e ainda aprendo muito sobre feminismo conforme vou caminhando. Mas a essência dele, de querer criar conexões mais verdadeiras com as mulheres, será sempre a mesma”, ressalta.

No mês em que se comemora o Dia das Mulheres, a revista profissional & negócios traz em suas páginas um bate-papo com Juliana, que fala sobre seu projeto, o desafio das mulheres no mercado e trabalho, feminismo, entre outros temas cada vez mais em debate na sociedade. São questões que infelizmente ainda são tabu e levam diversas mulheres que levantam essa bandeira à sofrer retaliações, ameaças e intimidação.

p&n – O que a motivou a criar o Think Olga? Você tem conseguido mobilizar e sensibilizar as pessoas sobre a questão da feminilidade?

Juliana de Faria – A limitação de assuntos. As revistas femininas não deveriam ser chamadas assim, porque suas páginas trazem matérias sobre moda, beleza e sexo. Isso é dizer que mulher só se interessa por esses assuntos. Na minha visão, essas publicações deveriam tratar de todos os assuntos – política, economia, cinema, música, arquitetura, carros, futebol –, mas com um viés feminino e feminista. E o Think Olga foi criado para ser uma produtora de conteúdo feito para, por e sobre mulheres. Gosto da frase da jornalista e ícone feminista Gloria Steinem: “A verdade vai te libertar. Mas antes vai te irritar”. E o feminismo é a conquista de poder pela informação. Uma mulher bem informada – dos seus direitos, das suas possibilidades e, principalmente, de realidades tristes e injustas – é uma mulher com mais força para lutar e para buscar alternativas e mudanças. E a Olga nasceu a partir desse desejo de criar uma conversa mais honesta, mais acessível com as mulheres. De criar conteúdo livre de estereótipo, de linguagem paternalista e pressões sociais. O projeto acabou indo além e se desdobrando em diversos outros braços: workshops, encontros, palestras, exposições, projetos colaborativos, um grupo de debate com mais de 2.000 membros e até um e-book. Trabalho em diversas plataformas, mas sempre com o mesmo objetivo: empoderar mulheres pela informação.

p&n – Um dos textos no Think Olga fala sobre “Por que a internet odeia as mulheres?”. Você já sofreu preconceito, ameaças ou teve problemas por conta do trabalho que desenvolve?

Juliana – Sim. No início da campanha “Chega de Fiu Fiu”, fui vítima de violência online. Sofri ameaças de morte e de estupro. Pessoalmente, sempre é muito difícil. Você tenta fazer um trabalho que pode de alguma forma mudar a situação da violência contra as mulheres e precisa enfrentar pessoas, algumas delas conceituadas, que distorcem sua mensagem e muitas vezes ofendem você. Mas é claro que não vai conseguir tirar o privilégio de milênios de alguns grupos sem incomodar algumas pessoas. O interessante é ver como homens supostamente inteligentes e liberais se transformam rapidamente em conservadores ao perceber que há, sim, gente batalhando para equiparar os privilégios de uma minoria com os da maioria.

p&n – Você acredita que as empresas estão olhando para as mulheres e suas necessidades? O que falta?

Juliana – Acredito que está acontecendo uma mudança – drástica e rápida. As mulheres hoje – essas cheias de poder, conhecimento, autonomia e vontade de fazer – não aceitam mais mensagens que não sejam autênticas, que as desrespeitem, ofendam ou as tratem de modo condescendente. Elas sabem identificar quem entende a vida delas (a real, não aquela dos estereótipos cheios de mofo) e buscam se inspirar em pessoas, marcas, histórias e mensagens que também apoiem a liderança feminina. Sou sócia da Think Eva, consultoria de comunicação com olhar em gênero para empresas. A Eva nasceu para proteger, valorizar e ampliar as possibilidades para as mulheres por meio de uma representação feminina na mídia, mais humana, responsável e cuidadosa. Criamos um diálogo saudável entre marcas, instituições e as mulheres. O resultado são expressões capazes de gerar engajamento com o público feminino de uma forma verdadeira e valiosa. Afinal, as mulheres têm muitas histórias ainda a serem contadas. E nenhuma organização pode ser dar o luxo de ignorar a metade mais revolucionária da população mundial.

p&n – Em sua opinião, as áreas de Recursos Humanos poderiam fazer um debate mais profundo sobre a questão da mulher nas empresas? Empresas tidas como boas para mulheres trabalharem oferecem basicamente licença-maternidade de seis meses, programas sobre câncer de mama, assistência pré-natal e assistência creche. Em sua opinião, essas ações realmente fazem diferença para que a mulher sofra menos com a desigualdade e tenha as mesmas oportunidades nas organizações?

Juliana – Acreditamos que já passou da hora de encorajar as mulheres a sonhar sonhos possíveis. Até a geração de nossas mães, simplesmente ter o direito de escolher uma carreira já era difícil. Hoje as barreiras são menores, não é tão difícil superá-las. Nos últimos anos, as mulheres têm realizado uma série de conquistas em termos de educação e mercado de trabalho. No Brasil, elas são maioria nas universidades e estudam por mais tempo que os homens. Em todos os resultados de pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre nível de educação, as mulheres estão à frente dos homens: elas têm uma taxa menor de analfabetismo (9,1% contra 9,8% dos homens), completam mais o ensino superior (12,5% das mulheres com 25 anos ou mais são graduadas, frente a 9,9% dos homens) e dominam os mestrados, (representando 53,5% dos mestres do país, e eles, 46,5%). Só que esse avanço todo não se reflete em melhores condições de trabalho. Mesmo com uma melhor formação e mais anos de estudos, as mulheres ainda recebem salários mais baixos que os dos homens. Elas ganham o equivalente a 79,5% do salário deles, segundo dados do Cadastro Central de Empresas (Cempre). Os RHs precisam lutar pela eliminação de todas as formas de discriminação de acesso, remuneração, permanência e ascensão no emprego contra as mulheres. Discursos sobre promoção de oportunidades iguais para todos os gêneros são bonitos e importantes, mas é preciso agir para incorporar esses valores, efetivar as medidas para combater a desigualdade com critérios equitativos para a valorização de tarefas e lugares de decisão. Essas ações citadas são, sim, necessárias, mas os RHs devem ter em mente que o combate de preconceito deve estar em todas as etapas do ciclo do funcionário: recrutamento, promoções, permanência, avaliação, remuneração…

p&n – Como você vê o debate do assédio sexual e moral nas empresas? Como esses assédios se manifestam?

Juliana – O assédio sexual, por muito tempo, não foi entendido como uma violência sexual contra a mulher. Apesar de o Código Penal caracterizar o assédio sexual como um crime (quando acontece no ambiente de trabalho), ele sempre foi compreendido e lido como xaveco, flerte saudável. Não é. Ainda mais quando há uma relação de desigualdade de poderes entre os personagens. Esse assunto precisa ser debatido com mais profundidade, em toda a sua complexidade, pois é só assim, esclarecendo o problema, a questão, que conseguimos empoderar as vítimas, de forma que elas compreendam que aquilo pelo que estão passando não é algo a se tolerar. É violência, é crime, e deve ser reportado. É importante que as empresas criem canais de denúncias de discriminação de gênero e raça e de assédio moral e sexual, como ouvidoria, 0800, Fale Conosco ou ouvidoria itinerante. Que respeitem o pedido de anonimato dos funcionários e os proteja de qualquer possibilidade de retaliação. E que utilizem a comunicação do programa de ouvidoria para mostrar exemplos de preconceito e abuso que são comuns e não mais tolerados. A impunidade não pode ter espaço aqui.

p&n – Como você vê o movimento feminista hoje? Você se considera uma feminista?

Juliana – Sempre compartilhei da luta do feminismo se partimos do significado básico do termo (do Aurélio, movimento com o intuito de conquistar a equiparação dos direitos políticos e sociais de ambos os sexos). Lembro-me até de defender o direito ao aborto em discussões com colegas de escola, quando ainda era pré-adolescente. Mas por muito tempo reneguei a credencial de feminista por acreditar que o feminismo me renegava. Na minha ignorância, acreditava que algumas das minhas ações, como me interessar por moda e beleza e ter me casado no papel, já me excluíam do movimento. Foi graças a debates na internet que me aprofundei no assunto, entendendo então que feminismo também significa liberdade e empoderamento. E acredito que o movimento hoje tenha ganhado força e se popularizado. Uma das causas é o uso da internet, que tem a força de conectar muitas mulheres, em lugares diferentes, com sonhos, medos e objetivos iguais. Isso dá força para o movimento.

p&n – Como você vê pesquisas que dizem que mulheres são melhores que homens em certos pontos ou o contrário? Esse tipo de estudo não reforça ainda mais o debate preconceituoso ou excludente?

Juliana – Eu não acredito em justificar talentos de pessoas apenas pelo sexo atribuído a elas no nascimento. Mas também sei que muitas de nossas características como mulheres e homens foram e ainda são socialmente construídas. E essa construção pode ser muito perversa, forçando homens que não querem ser agressivos a o serem, bem como mulheres que não querem ser maternais a o serem também. Somos ambiciosos, organizados, delicados, cuidadosos, agressivos porque somos seres humanos, e não porque somos homens ou mulheres. E acredito na diversidade. Quando pensamos em ambientes de trabalho, é ela que vai fazer com que uma equipe seja mais inteligente, mais “cabeça aberta”. Não é só a questão de ter mais mulheres. Temos que ter negros, pessoas com deficiências, pessoas mais velhas e mais jovens, todos os eixos de identidade. Mas o que acontece, hoje, é que o status quo – e as lideranças – é majoritariamente masculino, cisgênero, heterossexual, de classe média etc.

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