Desenvolvimento

A (instransponível?) distância entre empresas e universidades

“Ah, não fique preocupado, pois isso você só vai aprender mesmo quando começar a trabalhar.” Qual estudante nunca ouviu algo assim durante a sua graduação? Mas será que deveria ser assim? Muito se fala do gap entre empresas e universidades, mas é hora de pensar em como resolver esse dilema. Afinal, as empresas poderiam encurtar essas distâncias e evitar o retrabalho na formação e desenvolvimento desses jovens depois que estão trabalhando?

Segundo Ademir de Souza, presidente da Soulan Recursos Humanos, a constatação de que existem gaps entre as necessidades das empresas e as que são ensinadas nas universidades vem de longa data. Ele comenta que em muitas instituições tem acontecido um esforço no sentido de fazer a adequação tão desejada, mas ainda sem grandes resultados. Como inevitável consequência, as empresas vêm complementando a formação dos formandos com programas de trainees e projetos de estagiários que propiciam a vivência no mundo dos negócios e a vida empresarial real. “Como sempre aconteceu, a universidade entrega uma formação acadêmica como um espelho de veículo que só contém a realidade do passado; projetos que rompem com essa situação são exceções e, na maioria dos casos, tornam-se sucessos”, opina.

Gilberto Kanczewski, diretor de Marketing e Negócios da Servsul, acredita que ainda não exista um projeto integrado entre empresas e universidades. Ele comenta que em seu negócio há grandes dificuldades, pois depende exclusivamente de órgãos aprovados pelo governo, como instituições sem fins lucrativos. “Para contratarmos jovens e trainees, pagamos valores altos, acredito eu, enquanto o que é repassado a esses jovens, que estão começando a sua vida profissional, é muito pouco. Não vejo possibilidades de investirem em cursos extracurriculares, como o inglês. Na minha opinião, esse projeto deveria ser tratado com mais responsabilidade, pois representará, em um futuro próximo, a evolução desses talentos”, diz.

Sabrina Silva, gerente da unidade Santo Amaro da Luandre, diz que “o conteúdo ministrado dentro da sala de aula não está de acordo com a prática”. E quando o jovem se vê no mercado de trabalho, “percebe-se o quanto está faltando em sua formação, e o quanto se tem que ir em busca do que as empresas esperam dele no dia a dia do trabalho”.

“O principal objetivo das empresas e universidades em relação ao jovem é a sua formação. Hoje essas duas instituições trabalham de forma independente, e pouco se articulam para proporcionar ao jovem uma formação mais integrada no que se refere aos conteúdos teóricos e práticos”, ressalta Regina Camargo, sócia-diretora da Across.

Jan Wiegerinck, presidente da Gelre, diz que não conhece cases de empresas que tenham conseguido diminuir as distâncias entre elas e as instituições de ensino, e afirma: “É uma das minhas frustrações não ter feito”. Ele comenta que o maior desafio na gestão de estagiários e trainees é ajudá-los a encontrar a sua verdadeira missão na vida e que “a universidade, em muitos casos, pode tornar o ensino menos teórico, incluindo mais a realidade que o futuro profissional irá encontrar”. Do outro lado, as empresas podem usar com mais intensidade o sistema de estágios, “pois o estudante que o faz cria naturalmente a habilidade de integrar teoria e prática”.

Mas como esquecer a diversidade de gerações? Segundo Sabrina, hoje lida-se com diferentes perfis profissionais. Por esse motivo, segundo ela, a adaptação frente à diversidade de profissionais é o maior desafio.

Para a gerente, é preciso atentar às especificações e características que envolvem os colaboradores e traçar estratégias para conseguir motivação, envolvimento e empenho dos profissionais diante do cenário misto em que atuam. Tratando-se principalmente dos jovens e trainees, a empresa precisa instigá-los, em qualquer setor ou segmento da corporação, a pensar diferente.

O papel do RH

E como o RH pode ajudar? Segundo Sabrina, diante da distância da sala de aula universitária para o contexto empresarial/corporativo, o RH tem a oportunidade de:

  • Vivenciar e amenizar esse gap, realizando primeiramente um acompanhamento do profissional na empresa de maneira intensa, e não apenas superficial;
  • Traçar objetivos de forma que o jovem consiga alcançar, com a prática no dia a dia da empresa, as competências que possivelmente ele possa ter adquirido no ambiente acadêmico;
  • Atualizar-se para conseguir acompanhar as tendências do mercado e fazer essa ponte com a atuação do colaborador diretamente com seu gestor e profissionais que o acompanham em suas rotinas profissionais;
  • Realizar uma troca entre os demais estudantes/estagiários da empresa.

Mas o RH pode ir além e se envolver diretamente com as instituições de ensino. Sabrina comenta que a participação na vida acadêmica dos estagiários e trainees por parte do RH é de fundamental relevância para a efetivação dos programas de estágio e trainees, “pois assim eles conseguem ampliar a visão e acompanhar verdadeiramente o conteúdo que esse jovem está absorvendo”.

Outras empresas também abrem a opção de os colaboradores desenvolverem trabalhos acadêmicos com foco no ambiente corporativo. “O jovem tem a oportunidade de realizar seu trabalho de conclusão de curso aplicando-o no dia a dia de sua atuação e vinculando-o à empresa em que trabalha, de modo que ambas as partes se beneficiam: o aluno, como forma de profissionalizar o conhecimento adquirido, e a empresa, como maneira de divulgar tal contribuição diante da instituição e demais alunos envolvidos”, relata Sabrina.

Para Regina, o principal desafio na gestão desses jovens é conseguir gestores que os desafiem e estimulem constantemente. Ela comenta que tem visto programas muito bem estruturados no que se refere aos conteúdos formais, mas 70% do desenvolvimento acontece no dia a dia do trabalho, “e é aí que um bom gestor faz a diferença”, diz. Sobre as ações para que empresas e instituições de ensino se tornem mais próximas, ela cita parcerias entre as duas, oferecendo estágios regulares, estágios de férias, participação em aulas, palestras, oportunidades de visita a fábricas etc.

Sobre a formação desses jovens, Kanczewski afirma que, hoje em dia, “é muito fácil a busca por informações”. Em um clique de celular se descobre tudo, por isso vê a tecnologia como um grande desafio. “Ela tomou conta desses profissionais. Acredito que o maior desafio seja a dosagem, pois se perde o princípio básico, que é a leitura, formação acadêmica e a própria formação moral e cívica desses jovens”, diz.

Kanczewski acha fundamental a interface entre empresa e universidade e cita o “Instituto Matéria Prima”, da Eurofarma, em que os jovens fazem cursos de aperfeiçoamento profissional e podem participar de vagas dentro da empresa: “Vejo como um programa de grande sucesso que realmente possibilita formar melhores profissionais”.

O diretor comenta ainda que “workshops são sempre um grande trunfo para aproximações, pois, além de incentivar os jovens, possibilitam o encontro entre empresas e universidades”, e os grandes beneficiados são os jovens, que podem, em locais desse nível, conhecer um pouco sobre o mercado e trabalho e quem sabe vislumbrar sua possível carreira profissional.

A gerente da Randstad Mônica Souza comenta que uma estratégia para diminuir o gap entre empresas e universidades é utilizar programas de desenvolvimento planejados e estruturados, de forma que o profissional se adapte rapidamente à cultura da organização. “A empresa deve levar em conta que investir no estudante traz vantagens significativas em longo prazo. Por isso, acompanhar o profissional desde cedo possibilita formar um bom profissional no seu quadro de talentos. Muitas empresas utilizam a figura do ‘coach’ de forma muito presente no desenvolvimento e carreira do profissional, e outras utilizam o sistema de ‘apadrinhamento’ (pessoas que se destacaram em programas anteriores acompanham as atuais)”, diz, e completa: “O papel da empresa acaba sendo um complemento entre a formação acadêmica e a realidade praticada no dia a dia do estagiário ou trainee, visando seu aproveitamento e desenvolvimento, além de um plano de carreira claro e bem estruturado, com políticas claras e desafiadoras, a fim de que o estagiário ou trainee não seja apenas um preenchimento de mão de obra”.

Souza explica que os projetos executados pela Soulan comportam atividades nas universidades, que, na maioria das vezes, contam com a participação de executivos da empresa cliente em palestras e apresentações que procuram esclarecer dúvidas e curiosidades dos estudantes. Nessas ocasiões o ambiente empresarial é exposto, e a discussão desse tema se torna menos complexa e mais cativante.

Ao finalizar ele enfatiza: “A necessidade de projetos e programas de estagiários e trainees para atender à demanda atual é muito maior do que a oferta. O resultado é que grande parte dos formandos acaba de forma inadequada adentrando no mercado de trabalho, e por consequência tanto a empresa quanto o formando iniciam processos de aprendizagem, nem sempre em conformidade com as melhores práticas de desenvolvimento de pessoas”.

Comentários

comentários

Comente aqui!

Qual sua opinião?

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Desde 1998 p&n é uma plataforma de conteúdos referência em Gestão de Pessoas e mundo do trabalho. Tanto nas versões web e impressa, com sua linha editorial independente, é focada na melhor entrega de informações e serviços para os profissionais de RH.

curte com a gente!

© 2017 Revista Profissional & Negócios. By Rockbuzz | Estratégia Digital

TOP
Web Analytics