Legado

A nova cara da ABRH-SP

 

Com certeza esta reportagem não traduz com profundidade a trajetória profissional de Theunis Marinho, mas vai aguçar a sua curiosidade como fez com a minha ao contar algumas de suas experiências. Por isso, já estou lendo o meu exemplar de sua recém-lançada autobiografia, “Sonhar alto, pensar grande”, da Editora Gente.

Atualmente ele é presidente da ABRH-SP, atua em conselhos de administração e faz coaching e mentoring para jovens presidentes. Mas nada disso faria sentido se ele não tivesse uma carreira angariada degrau por degrau e construída com muito esforço e desafios.

Marinho nasceu em Alto Rio Doce, a 90 km de Tirantes, MG. Seu pai era bancário, e, como sua função era abrir novas agências, até os oito anos morou em diversas cidades, como Ubá, Belo Horizonte, Socorro, São Paulo, Angra dos Reis.

Ele considera que, aos seis anos, teve seu primeiro trabalho, quando ficava responsável por fazer, todas as manhãs, exames de açúcar e urina no irmão caçula, diagnosticado com diabetes – um exame rudimentar para a época, mas necessário. Dos quatro irmãos, dois foram diagnosticados com diabetes, algo então incomum, e Marinho ajudava a mãe, de quem ele se lembra como uma “chefe motivadora”. E deu certo. Os dois se salvaram.

Mas o emprego com carteira assinada veio aos 14 anos. Nas férias, era office boy de uma empresa de autopeças no bairro do Pari, em São Paulo, mas parava quando as aulas voltavam. Com 17, entrou definitivamente para o mercado de trabalho, para nunca mais sair. Naquela época fazia um curso técnico de contabilidade e trabalhava no Banco Halles, na área de RH, com folha de pagamento.

Aos 22 anos, teve um sentimento intuitivo de que aquele banco não iria adiante, no que tinha razão, mas, antes que isso acontecesse, procurou outro emprego e foi contratado, na Bayer, para a área de custos e orçamentos. Na época o diretor de RH fazia questão de conhecer todos que entravam na empresa, e um dia, antes de começar a trabalhar, o alemão perguntou a Marinho se ele aceitaria trabalhar com ele. E assim ele o fez.

“Fui trabalhar em RH, com o Doutor Muller. Aos 29 anos, me tornei o sucessor dele na Bayer. Quando ele saiu, o presidente da Bayer na época me disse que eu ganharia tudo o que Muller tinha direito no Brasil, menos o título de diretor, pois a Bayer da Alemanha não aceitava dar esse título a um brasileiro. Só após quatro anos consegui ser considerado diretor de RH”, conta Theunis.

Esse é um pedacinho da história narrada por Marinho, que se tornou o primeiro brasileiro diretor da Bayer – e essa primariedade não parou por aí. Logo ele teve a oportunidade de mudar-se para a Alemanha, e a entrevista mostra toda essa trajetória, na qual enfrentou discriminação, dificuldades com a língua, falta de confiança e muitas outras histórias.

p&n – Como foi a sua mudança para a Bayer na Alemanha?

Theunis Marinho – Com 36 anos, no dia em que fui receber um bônus, o presidente da Bayer me perguntou o que eu esperava da vida. Eu disse que queria ser diretor de RH de uma empresa mais importante que a Bayer. E ele me disse que eu estava errado, que deveria sair de RH, e não da Bayer. Eu nunca tinha pensado nisso. Aceitei ser jogado no mar: ir para a Bayer da Alemanha em um programa mundial de job rotation. Em agosto de 1986, fui transferido com minhas três filhas, esposa e cachorro para a Alemanha. Fui trabalhar na área agroquímica da Bayer. Meu chefe não me queria, fui discriminado, estavam loucos para ficar livres de um cara que não entendia nada de agroquímica e que estava lá apenas para atrapalhar. Eu era bom apenas em RH, mas estudei muito agroquímica. E um dia veio aquela sorte de principiante: tive uma ideia que rendeu bons negócios para a empresa e alavancou muito uma situação, me deu moral e uma sobrevida de que eu estava precisando. Enfrentei histórias para rir e chorar nesse primeiro ano. Nesse programa de job rotation éramos oito brasileiros; todos os outros voltaram e saíram da Bayer, apenas eu fiquei.

p&n – Você já falava alemão?

Marinho – Não, comecei a estudar alemão no Brasil, mas não tinha uma linguagem para fazer reunião, discutir termos técnicos e me posicionar. Depois que fui transferido, desenvolvi uma técnica para estudar a língua, pois em uma reunião um alemão falou para mim um termo que significa “fundamentos” em português, eu lhe perguntei o significado e ele me questionou o que eu tinha ido fazer na Alemanha se nem aquela palavra eu sabia o que era. A partir daquele dia, decidi que, em vez de brigar com o cara, eu iria aprender alemão melhor que ele. Depois de um ano, estava falando alemão de assustar alemão. Após um tempo, saí da área agroquímica e fui trabalhar em um negócio de óxido de ferro. Para isso eu teria que trabalhar mais três anos no país. Mas, naquele momento, eu já estava nadando naquele oceano alemão, já sabia falar melhor a língua, e, depois de três anos, quando eu teria que voltar para o Brasil, eles me nomearam para um cargo de diretoria, e assumi mundialmente esse cargo. Isso durou seis anos. Foi um cargo fantástico na minha carreira. Eu era como um “procurador”, uma espécie de empresário que decidia em nome da empresa. Quando se tem esse poder de decisão e de movimentação, é possível fazer muita coisa legal.

p&n – E por que decidiu voltar ao Brasil depois disso?

Marinho – Chegou uma época em que minhas filhas já estavam grandes, a mais velha com aproximadamente 18 anos, e eu queria que elas tivessem uma identidade brasileira. Assumi, então, a posição de finanças e me tornei o primeiro diretor financeiro da Bayer no Brasil. Os alemães falavam que não entregavam a chave do cofre para brasileiros, e eu fui o primeiro que pegou a chave do cofre. Felizmente trabalhei bem. Depois disso, assumi a presidência da Bayer na área de polímeros. Esse cargo me dava também a função de diretor-geral para a América Latina nesse negócio. Enfim, essa foi a minha vida na Bayer em cerca de 29 anos. No meu livro, procuro mostrar para os jovens que é preciso ter uma estratégia e ir em frente, que dá certo. Cada um com as suas características, aptidões, pontos fortes e fracos, mas todos podem avançar. Digo que o sucesso de um ser humano não se mede por onde ele chegou, mas de onde ele partiu. Um nordestino que vem num pau de arara para São Paulo, que passa fome e não tem onde morar, e depois de tantas dificuldades consegue ter um táxi que é dele, um bar, ou se torna pedreiro, mestre de obras etc., para mim ele chegou ao pico da glória, pois a base dele foi muito difícil. Em contrapartida, você tem um George Bush, cujo pai foi presidente dos EUA, e ele depois consegue a mesma coisa; para mim, esse cara estava muito mais próximo de ser presidente do que um nordestino de conseguir um negócio próprio. Então, temos que relativizar o sucesso das pessoas olhando o ponto de partida.

p&n – E como foi o seu processo de aposentadoria?  

Marinho – Me aposentei na Bayer aos 52 anos. Antecipei a minha saída porque, desde os 14 anos, trabalhei sem parar, com entusiasmo e prazer. Saí e me dei bem trabalhando por conta própria, com a construção de imóveis, compra e vendas. Peguei um momento bom, em que o país ia bem. Quando fui alavancando mais, comecei a pensar quantos anos eu teria ainda de vida e achei que tinha que deixar um legado para agradecer um pouco mais o meu passado e devolver tudo o que ganhei. E decidi, dentro desse processo, fazer algumas coisas: hoje trabalho em conselhos de administração de empresas, faço coaching e mentoring para jovens presidentes, e atualmente sou presidente da ABRH-SP. E isso é uma maneira de devolver tudo o que consegui no meu passado.

p&n – Mas por que depois de ter passado por tantas áreas você continua se identificando como profissional de RH?

Marinho – O meu DNA é RH. A minha vida teve sucesso porque comecei em RH. E sabe por quê? Se num sábado você estiver na avenida Faria Lima ou na Paulista e observar todos os prédios, vai perceber que nesses dias os escritórios são muito parecidos, são mais ou menos as mesmas máquinas, móveis e ambiente. O que muda é na segunda-feira de manhã, quando chegam as pessoas. O que faz uma empresa ser diferente são as pessoas.  E isso eu aprendi muito cedo trabalhando com RH. Outra visão que tenho é que o profissional de RH nos anos 70, 80, quando eu trabalhava nessa área, era administrativo, fazia folha de pagamento, e depois passou a fazer negociações com os sindicatos. Falando de maneira provocativa, em algumas empresas ele era o gandula do time. Quando o time ficou mais maduro, ele se tornou o massagista: quando o jogador se machucava, ele ajudava e colocava o cara para jogar de novo. Só que o mundo mudou, e quando a empresa se tornou grande, ele virou o cartola, assistia ao jogo da arquibancada, ao lado do dono da empresa, mas não jogava. De repente, hoje, ele é cobrado para ser um dos 11, tem que jogar, tem que estar dentro e tem que ajudar o time a ganhar. E arrisco a dizer o número dele no jogo: ele é o camisa 5, que joga no meio do campo, ajuda o goleiro a não tomar gol, distribui bola, termina o jogo suado, cansado, mas com a taça na mão, porque ele é um dos 11. Esse, para mim, é o profissional de RH de hoje.

p&n – E você conseguiu acompanhar essas transformações da área de RH e se tornar o cara que ajuda a empresa a ganhar?

Marinho – Quando entrei na Bayer ela não tinha nem folha de pagamento administrativamente correta. Era cheia de erros, confusão e reclamação. Criei na Bayer índice de turnover, pesquisas, criei um relógio que tinha horas, mas não ponteiros, e ficava na entrada da empresa com uma frase: “Bem-vindo à Bayer, nosso tempo é seu”. A ideia era fazer a pessoa que chegasse se sentir à vontade conosco. Fizemos uma série de atividades pelas quais a empresa começou a ganhar dinheiro e se tornar eficiente. A Bayer foi a terceira empresa privada no Brasil a ter fundo de pensão, as outras eram todas estatais. Isso era algo revolucionário. E pior, os alemães não queriam que criássemos um fundo de pensão no Brasil, achavam que iria só gerar custo. Os executivos já tinham o fundo de pensão deles na Alemanha. Mas o presidente topou. E fizemos uma jogada, que eu conto no livro, para fazer esse programa dar certo. A gente também construiu um clube para os funcionários. Na época as empresas não tinham uma visão social, mas conseguimos fazer tudo isso, pois mostramos que daria lucro, que os empregados ficariam fiéis ao trabalho, e tudo isso ajudou muito. A Bayer foi a primeira empresa no Brasil que aboliu os cartões de pontos nos escritórios. Conseguimos isso na época fazendo acordo com o Ministério do Trabalho e com o sindicato.

p&n – Como você acha que conseguiu ser tão inovador em um contexto e uma cultura de empresa alemã, que não estimulava isso?

Marinho – Primeiro, eu tinha um presidente que comparava essa briga, eu conseguia convencê-lo de que seria bom para a empresa. Mas acho que nunca existe uma razão única: você precisa estar preparado, ser assertivo, mostrar que vai dar certo, e entregar, de fato, o que vê prometeu. E tem que ter um atrevimento. Conto no meu livro histórias que vivi na Bayer, principalmente com alemães, como ser grampeado dentro da minha sala, quando eu já estava no cargo de presidente. Eu tinha desconfiança de barulhos no meu telefone e contratei uma empresa de segurança que me mostrou o grampo, tanto na empresa quanto na minha casa. A moral da história é que o importante, para mim, é saber que quem me grampeou perdeu tempo, pois sou um homem íntegro e não perdi nenhuma noite de sono pensando no que poderiam ter ouvido.  Fiquei decepcionado, você cria suposições de situações, mas até isso acontecia. Tem outros episódios, de quando eu era diretor na Alemanha e a Bayer chamava autoridades para fazer palestras aos diretores. Uma vez veio um general chefe da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), que era o comandante-chefe das tropas ocidentais na época da Guerra Fria. Durante a palestra, ele não sabia que tinha um mineiro ali, e comentou algo muito pesado contra o Brasil, e que uma das possibilidades seria os aliados dessas grandes potências invadirem a Amazônia e torná-la uma área internacional. Quando ouvi aquilo, como brasileiro, fiquei chocado e pensei: o que eu faço agora? Porque isso havia me atingindo. No livro conto o que fiz e como reagi. São momentos na vida em que você tem escolhas: pode fazer uma que é supererrada ou fazer como eu, que na hora eu tive discernimento e optei por uma atitude correta, não colocando minha carreira em risco.

p&n – Qual era o seu objetivo ao escrever esse livro?

Marinho – Quero deixar um legado, para as pessoas lerem e descobrirem que não precisam ter sangue azul para virar alguma coisa, que quem quer crescer tem que ir para frente, tem que lutar muito e não pode errar. O nome original do meu livro era “Everest Corporativo”, e eu queria fazer uma analogia: em qualquer montanha, quanto mais se sobe, mais o ar fica rarefeito; digo que o poder é a mesma coisa: quanto mais você vai na direção do pico, mais falta de ar você sente. Conto como você pode amenizar essa falta de ar, que é o poder, que o isola, coloca numa gaiola. Você pode falar que é o topo, mas não deixa de ser uma gaiola. E a vista lá de cima do Everest é maravilhosa, mas são pouquíssimos que chegam. É um lugar em que só cabe um, mas é possível, mesmo tendo nascido em Alto Rio Doce, Minas Gerais.

p&n – Qual foi o seu maior desafio como RH?

Marinho – Na época em que eu era diretor de RH, começou a movimentação sindical no Brasil. Foi a época em que o Lula era presidente dos metalúrgicos no ABC. Como movimento sindical, foi bom para o Brasil, na minha opinião. Eles faziam greves e movimentos, principalmente na indústria automobilística. E chegou um momento em que esses líderes sindicais decidiram ir para a área química, que era a segunda maior. Tomamos conhecimento de que eles queriam fazer uma greve e parar a Bayer. Tentamos evitar isso de forma democrática, e, embora não existisse insatisfação dos funcionários, existem várias maneiras de tentar parar uma fábrica, como fechar a rua, não deixar os funcionários entrar etc. Fizemos uma reunião de diretoria sobre como agiríamos. Foi decidido que chamaríamos a polícia, e a segurança armada da empresa disse que também iria confrontar. Falei que os vigilantes da Bayer não poderiam estar armados nesse dia, e isso virou uma polêmica enorme. Minha justificativa era que os sindicalistas iriam adorar fazer essa bagunça e ter um cadáver dentro da empresa. Essa foi uma luta de horas e horas de reunião. Terminamos a conversa e prevaleceu a minha ideia. E assim foi. No outro dia, teve sindicalista, tentaram impedir os funcionários de entrar, mas fizemos uma estratégia, a Bayer não parou e não teve violência. Entre mortos e feridos, ficaram todos vivos. Foi um dia de muita tensão para mim, para que isso desse certo. Nesse dia, inclusive, levei um colchão de casa e dormi na empresa, para estar lá de manhã, caso impedissem minha entrada.

p&n – Você cometeu algum erro durante a sua trajetória?

Marinho – Estou felicíssimo que você esteja fazendo essa pergunta. Eu imaginava que as pessoas teriam essa curiosidade, e no meu livro escrevi, a partir da minha experiência, os 15 mandamentos para o sucesso no mundo corporativo, que fizeram eu me dar bem na vida. São 15 frases curtas que também surgiram devido aos meus erros:

  1. Sonhe alto e faça plano desafiadores para o futuro. Lembre-se, os nossos olhos não ficam na nuca;
  2. Não delegue o seu destino a terceiros;
  3. Aprenda a dizer não sempre que necessário e na hora certa;
  4. Não cultive relacionamentos destrutivos, eles são epidêmicos;
  5. Discipline-se com pensamentos positivos. A vida fica mais suave;
  6. Reflita sobre seus atos antes de colocá-los em prática;
  7. Cultive suas amizades mesmo que elas sejam passageiras;
  8. Aprenda com seus erros, eles são ótimos professores;
  9. Não sofra por antecipação;
  10. Nunca apague o seu passado. Ele é o seu alicerce mais profundo. Negá-lo é tornar-se um indivíduo falsificado;
  11. Não adie as soluções para seus problemas, resolva respeitando o tempo e todos os envolvidos;
  12. Perdoe quem o magoou, você desocupará lugar em seu coração para preencher com coisas boas;
  13. Estude sempre;
  14. Errar é inevitável;
  15. Tenha sempre bom humor.

Comentários

comentários

Comente aqui!

Qual sua opinião?

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Desde 1998 p&n é uma plataforma de conteúdos referência em Gestão de Pessoas e mundo do trabalho. Tanto nas versões web e impressa, com sua linha editorial independente, é focada na melhor entrega de informações e serviços para os profissionais de RH.

curte com a gente!

© 2017 Revista Profissional & Negócios. By Rockbuzz | Estratégia Digital

TOP
Web Analytics