Estratégia

Por que a sua empresa deve investir em uma utility token?

Você já deve ter ouvido falar em moedas digitais de grandes corporações como Kodak, Burger King e, mais recentemente, com especulações envolvendo uma futura criptomoeda do Facebook, que acaba de criar uma divisão dedicada exclusivamente à tecnologia do Blockchain. Mas, por que exatamente estas corporações estão de olho em lançar suas moedas digitais? Será que isso é mesmo um bom negócio, mesmo em tempos de recessão? Podemos responder que sim, com certeza. Sobretudo se você também compartilha da opinião de que até eventuais crises podem gerar extraordinárias oportunidades.

As criptomoedas ou como criptoativos são interessantes para qualquer empresa, grandes ou pequenas, com ótima saúde financeira ou, ainda, as que necessitam de estratégias para se monetizar. Quer saber como? Então, vamos lá.

Tem sido frequente se deparar com placas de “passo o ponto” e “aluga-se” afixadas na porta de pequenos estabelecimentos em todo o Brasil. É que, por dois anos consecutivos, o país tem fechado mais empresas do que aberto. Entre os motivos que explicam a taxa de mortalidade no mundo corporativo está a delicada situação macroeconômica brasileira, além do despreparo dos empreendedores em lidar com planejamento estratégico e financeiro. O segmento de comércio e reparação de veículos liderou essa triste estatística, pois, além dos desafios inerentes a qualquer negócio, ainda lida com a dificuldade de prever a demanda pelo serviço.  Afinal, consertar o carro ou fazer o checkup da moto nem sempre é prioridade no orçamento, especialmente, quando há quase 28 milhões de desempregados em todo o Brasil.

Nesse sentido, tudo o que os empresários, em especial, os novatos, mais querem é algo que funcione como um termômetro da demanda, que aponte se é hora de aquecer os motores ou de pisar no freio.  Esse termômetro existe e se chama token de utilidade ou como alguns gostam de chamá-lo: Utility Token,, token de consumo, token de usuário e moeda de aplicativo.

Esse ativo é uma espécie de senha que dá acesso a um produto ou serviço que será ofertado pela empresa no futuro. É como se fosse, portanto, uma pré-venda em que os interessados se apresentam de antemão, dando tempo para o empreendedor se preparar para atender a demanda. Dessa forma, o token de utilidade não é um investimento – e por isso não está circunscrito nas regulamentações da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Para serem regulamentados pela CVM, os instrumentos precisam ser considerados títulos (securities) e, portanto, estarem sujeitos a certos requisitos de divulgação e registro conforme o elenco de valores mobiliários do Art. 2º da Lei 6.385/76. Outro fator é estar de acordo com as regras americanas da Securities and Exchange Commission (SEC). Essas regras vieram na esteira do interesse em proteger os investidores e regulamentar os instrumentos financeiros. Por esta razão, a Suprema Corte americana criou o Teste Howey, também utilizado no Brasil, para determinar se certas transações se qualificam como contratos de investimento ou não, como as utility tokens.

Porém, este fato não significa que não há dinheiro envolvido. A questão é que a rentabilidade não é a finalidade da emissão dos tokens de utilidade e, sim, arrecadar capital para desenvolver um produto ou um serviço.

Apesar das vantagens, o mercado ainda está amadurecendo neste sentido. Das 226 ofertas iniciais de moedas virtuais que se tem notícia, apenas 20 foram referentes a tokens de utilidade. As cifras, porém, são gigantescas. De janeiro a março deste ano, as captações de ativos de utilidade já arrecadaram quase US$ 5 bilhões, em todo o mundo.

Portanto, da parte do empreendedor, a lição a ser aprendida é: fazer uma emissão de utility token significa a possibilidade de captar recursos e testar a demanda do produto ou do serviço – o que não é nada mal especialmente em relação ao atual cenário de incertezas políticas e econômicas.

Por sua vez, pensando pelo lado do consumidor e do investidor, faz sentido pagar de antemão por um serviço? Sim, por uma série de razões. A primeira delas é a possibilidade de, no geral, pagar menos do que as pessoas que não participaram do crowdsale (rodada inicial). Afinal, depois do lançamento a demanda cresce e o empresário costuma embutir no preço uma espécie de prêmio. Uma segunda razão é que os tokens de utilidade acabam se tornando uma espécie de proteção contra calotes, garantindo que o bem ou o serviço que deseja consumir vai mesmo estar disponível no futuro.

Neste contexto, é importante dizer: se você é empresário ou head de uma corporação e está considerando lançar uma utility coin, é importante saber que qualquer um pode criar e emitir uma moeda virtual, pois toda a tecnologia para fazer isso é aberta e está disponível para quem quiser utilizá-la. Mas, é fundamental ter em mente que, o que vai agregar valor a moeda virtual é o projeto que sustentará a utilização do criptoativo de utilidade e nunca a moeda em si, isoladamente. Por este motivo, foi criado o termo reputation coins. Ou seja, o que vale, de fato, não é apenas a tecnologia de um criptoativo, mas a reputação que ele tem no mercado. Para atuar no mundo dos ativos digitais, é necessário avaliar uma gama de variáveis que estão atreladas àquele ativo.

Por fim, a lição que devemos aprender é que uma moeda virtual não surge por si só. É necessário compreender como ela foi criada, para que serve e qual a sua utilidade. É assim que vamos todos validar as boas iniciativas, sermos verdadeiros investidores (ou empreendedores) e preservar a sustentabilidade das futuras utility coins e de todo este novo ecossistema revolucionário que está surgindo diante de nós.

Por Fernando Barrueco, advogado sócio da Perrotti e Barrueco Advogados e Legal Advisor da Bolsa de Moedas Virtuais Empresariais de São Paulo (BOMESP).

Comentários

comentários

TOP
Web Analytics