Gestão

A tecnologia e a gestão de pessoas – A nova face do RH

Segundo o autor de “Homo Deus: Uma breve história do amanhã”, Yuval Noah Harari, “computadores programados com algoritmos éticos podem se conformar com muito mais facilidade às regras mais recentes da corte criminal internacional”.

O modelo liberal que predominou fortemente ao longo do século XX, e que fez nações como a Grã-Bretanha, França e Estados Unidos prosperarem, priorizou o argumento econômico em detrimento do argumento moral. Escolher entre a ética e a economia, na visão liberal, não era necessário. Proteger direitos e liberdades humanos era tanto a coisa moral a ser feita quanto a chave do crescimento econômico, priorizando as massas.

No século XXI, a robótica e a inteligência artificial estão assumindo o papel dos humanos, das massas, em processos operacionais repetitivos e dependentes de mão-de-obra intensiva, como se nota, predominante, no mercado brasileiro, em particular.

Apesar do meu incorrigível otimismo perante a vida e, sobretudo, em relação à humanidade como um todo, estou inclinado a concordar com o autor de “Homo Deus”, pelo menos neste momento, de que estamos no limiar de uma grave revolução, caracterizada pela dissolução entre a inteligência e a consciência. Robôs e a inteligência artificial estão forjando um algoritmo de relações que tem potencializado o alcance da inteligência, apesar da ausência de consciência. Tarefas cognitivas baseadas em padrões de reconhecimento e alto nível de inteligência (como diagnóstico de doenças ou jogar xadrez, por exemplo) estão sendo mais bem executadas mediante novos tipos de inteligência. Algoritmos não conscientes podem, rapidamente, superar a consciência humana no que concerne a esses padrões.

Neste contexto, de avanço exponencial da inteligência a partir do uso da tecnologia aplicada, a necessidade de desenvolvimento dos seres humanos será inexorável, sob risco de “humanos não melhorados” serem completamente inúteis na sociedade. Robôs e impressoras 3-D já substituem trabalhos manuais. Mesmo ocupações de natureza administrativa, como as dos corretores da bolsa de valores, serão substituídas pela inteligência artificial. Participei, recentemente, do 7º Fórum de Políticas Públicas no Insper, que tratou do tema Os Robôs e a Distribuição da Renda e do Emprego no Futuro”. Ficou evidente o grau de mudança estrutural que está acontecendo nos mercados de países desenvolvidos, como por exemplo em Wall Street; podemos antever, pondero, uma onda de choque jamais vista no mercado de trabalho brasileiro, nos próximos anos.

O relatório “Talent Analytics Leaders”, citado recentemente pela consultoria Ezayo, que atua no recrutamento de posições para a área de Gestão de Pessoas, informa que a tecnologia teve o maior impacto na área de RH do que qualquer outro fator de emprego. Está havendo uma transformação vertiginosa da área, baseada em People Analytics e intenso uso de inteligência artificial.

Na prática, sistemas de inteligência artificial estão sendo criados em ritmo intenso e esse fenômeno tem moldado o perfil das novas vagas para profissionais qualificados atuar em Gestão de Pessoas. O RH está sendo impelido a atuar com análise de dados, tal qual as demais áreas de negócios, pautando suas decisões por algoritmos, inter-relacionamento e correlação de dados, que possam indicar novos padrões na força de trabalho, os quais, normalmente, não seriam percebidos sem o uso da tecnologia.

Sem dúvidas, uma nova face do RH está surgindo, com oportunidades a profissionais muito qualificados, que dominem os conhecimentos sobre People Analytics, em ocupar um verdadeiro lugar de destaque no atual jogo corporativo.

Alguns exemplos de posições em aberto, sendo trabalhadas, pela Ezayo, no mercado norte americano:

– Tesla Seeks Senior People Analyst

– Facebook Seeks Research Scientist, People Analytics

– Data Scientist People Analytics Needed at Genetech (Roche)

Parece-me que estamos vivendo um poderoso ponto de inflexão na história da humanidade e das relações de trabalho. Aonde tudo isso nos levará, não me arrisco a dizer. O que parece inevitável, a meu ver, é o esgotamento dos modelos empresariais, baseados em uso intensivo de mão-de-obra e atuação de áreas de RH totalmente operacionais, sem nenhum valor estratégico.

Por Américo Figueiredo, Professor de MBA em Gestão de Pessoas Insper, Conselheiro de Empresas e Mentor Executivo.

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