Carreira

Vício inerente

Não há como não perceber como os meios tecnológicos tomaram conta de nossas vidas e o quanto nos tornamos tão dependentes deles. Claro que é quase impossível imaginar nossa rotina, trabalho, vida social, e mesmo, para alguns, lazer, sem esses recursos, mas alguns indivíduos vão além do aceitável e não conseguem mais viver sem eles.

Insônia, irritabilidade, distúrbios de humor, esses podem ser alguns dos sintomas vividos por alguém que, por exemplo, não aceita a ideia de esquecer o celular em casa, por exemplo. Segundo Sylvia Van Enck, psicóloga voluntária do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso (AMITI), vinculado ao Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq/HC-FMUSP), cerca de 10% da população de usuários de internet podem ser considerados dependentes. Parece pouco, mas, de acordo com o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), o número bruto de usuários de internet no Brasil é de 85,9 milhões. Ou seja, seriam mais de 8 milhões de pessoas dependentes.

Sylvia explica que essa dependência acontece cada vez mais cedo, e muitos pais acabam influenciando o comportamento nos filhos, oferecendo todos os tipos de equipamentos, tablets, videogames, jogos cada vez mais sofisticados, e acompanhado da falta de limites. Ela conta que, inclusive, foi procurada por uma família devido a problemas com uma criança de 3 anos que tinha um comportamento compulsivo com relação a tecnologia. “Ela não podia ver ninguém com um aparelho que dava um jeito de pegar e usar”, conta.

Geralmente, porém, a dependência tecnológica não ocorre isoladamente. Ela pode vir associada a outros transtornos, como depressão, ansiedade, fobia social ou transtorno do déficit de atenção e hiperatividade. “Esse é um problema que afeta o social e a vida familiar e quebra a rotina de trabalho e estudo”, comenta Sylvia.

No aspecto clínico, essa dependência pode interferir na postura e visão, assim como contribuir com obesidade e desnutrição, já que, para ficar mais tempo junto a esses equipamentos, as pessoas não fazem refeições regulares ou recorrem aos fast-foods.

A psicóloga faz questão de ressaltar que um dependente não é aquele que fica horas no computados durante o trabalho, mas sim o que chega em casa e, para relaxar, ainda vai para a frente de um computador, videogame, celular ou tablet.

Sylvia diz ainda que essa dependência causa problemas que não se limitam apenas ao indivíduo, mas abrangem outras pessoas do seu convício. A tendência é que isso gere um sentimento de impotência no outro, que acaba reagindo com agressividade ou violência.

Seu conselho é que pais e parceiros não hajam dessa forma, e que entendam o momento e busquem ajuda de um terapeuta ou psicólogo. Sua dica se deve a diversas experiências que ela já teve, como o caso de um garoto que ameaçou se jogar do apartamento porque os pais destruíram seu aparelho celular. E ressalta: “Quando cuidamos do paciente juntamente com seus familiares, a melhora é maior”.

O grupo Delete (Desintoxicação de Tecnologias) é um dos locais em que indivíduos com uso abusivo do computador ou internet podem buscar ajuda. Lá é possível fazer avaliações e testes para um diagnóstico médico e depois ser encaminhando para um psicólogo, que irá tratar o diagnóstico primário, ou seja, a causa principal – que pode ser um transtorno de ansiedade, entre outros – que esteja levando o indivíduo a fazer uso abusivo e indevido desses dispositivos.

Anna Lucia Spear King, professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e fundadora e diretora do grupo Delete, diz que, quando uma pessoa já é compulsiva, isso pode levá-la à dependência tecnológica. Recentemente, ela e Adriana Cardoso lançaram o livro “Nomofobia”, em que abordam a massificação e a utilização obsessiva de celulares, computadores e outras ferramentas. O livro faz um sinal de alerta à sociedade, com o objetivo de estimular famílias e empresas a promover debates e processos de reeducação digital a fim de resgatar o calor das relações humanas, priorizar a vida real, sem, por outro lado, perder os benefícios desses recursos.

Em suas 352 páginas, renomados médicos e psicólogos, doutores e pós-doutores distinguem a dependência “normal” da dependência patológica, aquela que necessita de acompanhamento. Os 37 colaboradores dividem-se em 29 capítulos retratando a história da expressão nomofobia, abordando a dependência em redes sociais, a ansiedade e o coração dos nomofóbicos, depressão, psicose.

Anna Lucia faz questão de ressaltar que o uso abusivo da tecnologia pode revelar outros problemas que a pessoa já tenha. Por exemplo, um indivíduo que tenha transtorno do pânico não consegue ir para longe de casa e fica dependente do celular, só saindo de casa com ele. Outro exemplo é alguém que tenha fobia social. Essa pessoa não consegue fazer amizades pessoalmente, e sua timidez a deixa mal. Por isso, todas as suas relações se estabelecem virtualmente, e, por isso, ela fica dependente do computador.

A professora aconselha que se busque ajuda a partir do momento em que o indivíduo percebe que algo está errado. Isso pode ser, por exemplo, a reclamação de um familiar, um problema de coluna (por ficar horas na frente do computador) ou o hábito de mentir, para fazer uso da tecnologia.

Segundo ela, o primeiro passo para a prevenção é o bom senso e a atenção para o problema. O segundo, não passar mais horas na frente do computador do que ao ar livre. E por fim, prestar atenção à etiqueta digital, como não usar em sala de espera, elevador, enquanto dirige ou em salas de teatro ou cinema, além de não deixar outra pessoa à sua espera enquanto você está usando um aparelho.

Dez passos do grupo Delete para o uso consciente das tecnologias

1. Tenha bom senso, para que o uso não se torne abusivo no cotidiano;

2. Fique atento às consequências físicas (como privação de sono, dores na coluna, problemas de visão) e psicológicas (como depressão, angústia, ansiedade) devido ao uso abusivo;

3. Dose a prática de uso de tecnologias no cotidiano. Verifique se seu desempenho acadêmico ou no trabalho estão sendo prejudicados;

4. Reflita sobre seus hábitos cotidianos e faça diferente;

5. Não troque atividades ao ar livre para ficar conectado;

6. Prefira uma vida social real à virtual, escolhendo relacionamentos/amizades reais, em vez de virtuais;

7. Pratique exercícios físicos regularmente. Faça intervalos regulares durante o uso das tecnologias;

8. Não se deixe abalar por publicações virtuais. Não acredite em tudo o que é postado;

9. Valorize suas relações familiares;

10. Pense no meio ambiente, recicle os aparelhos e evite a troca frequente sem necessidade.

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